A CLASSIFICAÇÃO DE SAINT-ÉMILION – Uma Grande Ideia Que Não Deu Certo (parte 2)

Por 20 dezembro, 2021 1 Permalink

Este artigo é dividido em 3 partes:

Parte 1: Uma grande ideia

Parte 2: Uma classificação que não funciona – Você está aqui

Parte 3: O futuro da Classificação de St. Émilion

Na primeira parte deste artigo falamos sobre a classificação de St. Émilion, como ela é estruturada e as suas principais virtudes. Nesta segunda parte visitaremos as adversidades que atormentam sua credibilidade e sua efetividade.

Uma Classificação que não Funciona

Uma das grandes vantagens de estratificar vinhos em categorias é facilitar a escolha do consumidor (só em Bordeaux há mais de 9 mil produtores!), preferencialmente por meio de um critério simples de hierarquia qualitativa e tipicidade. As denominações de origem (ou apelações como são chamadas na França) são o principal arquétipo deste racional.

Há várias apelações satélites a Saint-Émilion

Ao se tratar de Saint-Émilion, antes de tudo é preciso estar atento para não se confundir com as apelações próximas como, por exemplo, Lussac Saint-Émilion, Montagne Saint-Émilion, Saint-Georges Saint-Émilion ou Puisseguin Saint-Émilion. Estas denominações de origem não são subdivisões de Saint-Émilion e podem causar dúvida. Muitas vezes o nome do vinho, o produtor e a denominação de origem ficam apertados no rótulo e podem gerar perplexidade.

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Vencida esta primeira etapa, quem tem intimidade com vinho provavelmente sabe que na França um vinhedo 1er Cru é hierarquicamente inferior a um Grand Cru. Por exemplo, um Chablis Grand Cru é mais prestigiado do que um Chablis 1er Cru e este por sua vez está acima do Chablis “comum”.

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Mas em St. Émilion o Grand Cru parece estar na base da classificação, enquanto os 1er se colocam em degrau mais acima.

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A diferença é que na classificação de St. Émilion todos os vinhos são Grand Cru, mas somente os melhores são 1er Grand Cru. Na verdade 1er Grand Cru Classé.

Captou a sutileza? Continua lendo que eu explico melhor…

Um vinho tem direito de ser um St. Émilion Grand Cru mesmo sem estar na lista criada em 1955. Isso porque existe também outra hierarquia em St. Émilion que nada tem a ver com o ranking que aqui falamos.

Paralelamente à classificação de 1955, um vinho produzido na região pode ser um St. Émilion “comum” ou um St. Émilion Grand Cru.

Para ser considerado um Grand Cru basta que os produtores observem algumas regras, sendo as quatro principais: (i) limite de rendimento da produção (entre 8 e 9 mil kg de uva por hectare), (ii) envelhecimento mínimo (16 meses antes do engarrafamento), (iii) 11,5% ou mais de gradação alcoólica, e (iv) as uvas devem ser colhidas com pelo menos 189 gramas de açúcar por litro.

São parâmetros que pretendem assegurar uma qualidade mínima, mas que, com as técnicas de vinificação disponíveis atualmente, não são difíceis de alcançar. Ao contrário da maioria das regras aplicadas na maior parte das regiões vitivinícolas, ser Grand Cru de St. Émilion não significa que o vinho foi produzido em vinhedos de qualidade superior e tampouco significa que a bebida tenha passado por algum teste de qualidade.

Nem todo Saint-Émilion Grand Cru é Classé

Há cerca de 200 vinhedos considerados “St. Émilion Grand Cru”. Dentre esses, atualmente 82 estão na classificação de St. Émilion criada em 1955. Ou seja, nem todos os Grand Cru de St. Émilion são classificados, isto é, nem todos os Grand Cru são Grand Cru Classé”, mas todos os “Classé” são Grand Cru.

E entre os que são Classé, os hierarquicamente superiores são considerados Premier, ou seja, os Premier Grand Cru Classé“. É como se houvesse os “comuns”, os classificados e os “classificados em primeiro lugar” A e B.

Os que não estão na classificação, ou não alcançaram o mínimo de 14 pontos na escala de avaliação (assunto do próximo capítulo), ou simplesmente não tiveram interesse de pagar a inscrição e se submeter a todo esse processo. E há vários rótulos não classificados considerados tão bons ou melhores do que muitos 1er Grand Cru Classé (Le Dome, Tertre Roteboeuf, Gracia, Quintus entre outros).

Pelo menos até aqui a confusão pode ser esclarecida por filtros objetivos, certo? Bem, continua lendo…

A Classificação de 2006

Desenhada para ser revisada a cada 10 anos, a classificação de St. Émilion foi publicada em 1955 (retificada em 1958), 1969, 1986, 1996, 2006, e 2012.

E a cada edição há um mar de contestações e controvérsias. As brigas e confusões sempre estiveram presentes, mas conseguiram ser mantidas interna corporis, até 2006.

Em 2006, a lista trouxe mudanças relevantes como a introdução do Château Troplong- Mondot e do Pavie-Macquin como 1er GC Classé B, frustrando os planos do Château Berliquet, que esperava também entrar nesta categoria e preterindo o afamado Château Figeac que aspirava ascender para 1er GC Classé A.

Château Figeac acabou preterido na classificação de 2006

Além disso, nada menos que 10 Châteaux foram excluídos do ranking. Foi o início de uma grande briga judicial e política.

Os demitidos Château Cadet Bon, Gaudet, de la Marzell e La Tour du Pin Figeac foram à justiça. Obtiveram, em março de 2007, a suspensão da classificação de 2006. Em novembro de 2007, a decisão foi revista para considerar parcialmente válida a lista de 2006, determinando, porém, a reinserção dos referidos produtores na mesma posição que ostentavam na lista anterior, a de 1996.

O processo judicial continuou e, em 2008, a corte local de Bordeaux entendeu que o painel de degustação não teria usado métodos que assegurassem uma avaliação imparcial. Como resultado, anulou a classificação de 2006 o que, a princípio, renovaria a lista de 1996 como a classificação vigente.

Logo na sequência a INAO, órgão que regula os produtos agrícolas e alimentos na França, conseguiu que o governo francês emitisse uma norma administrativa validando os procedimentos de avaliação utilizados em 2006.

A norma administrativa, contudo, não tinha o condão de reverter a decisão judicial. Ou seja, de um lado os procedimentos aplicados em 2006 foram declarados corretos (leia-se ascensões, rebaixamentos e exclusões), mas,
em razão das decisões das cortes francesas, era a lista de 1996 a única que poderia ser considerada oficialmente válida.

Felicidade para os produtores excluídos e infelicidade para os promovidos. Estes, porém, não ficaram parados. Reclamando que haviam feito enormes investimentos, procuraram o senado francês que, sensível à causa, chegou a discutir uma legislação que reconhecesse as ascensões estabelecidas no ranking de 2006. Ou seja, faria um verdadeiro trem da alegria da classificação de 1996, no qual vários sobem e ninguém desce. A proposição acabou sendo rejeitada.

Em 2009, o Judiciário francês, em decisão final, declarou inválida a classificação de 2006. E, em Bordeaux, intensificaram-se os trâmites para editar um novo ranking, ainda que sob certo ceticismo, principalmente quanto à metodologia aplicada na avaliação.

A classificação de 2012

Ainda sob a ressaca dos acontecimentos anteriores, no final de 2012, para grande alvoroço do público e da crítica, a 6ª classificação oficial de St. Émilion foi publicada.

Para emprestar maior imparcialidade ao procedimento a INAO reviu as metodologias e convidou especialistas de outras regiões, como Rhone e Borgonha, para comporem o painel de julgadores.

Como resultado, uma extensa lista de 82 produtores (a maior desde 1969), e que causou grande alvoroço na mídia especializada. As maiores surpresas foram as promoções do Château Angelus e do Pavie ambos para 1er GCC A, e a entrada do Château Valandraud e do La Mondotte diretamente na 1er GCC B, sem sequer estagiar na prateleira dos GCC.

A classificação completa de 2012 pode ser acessada aqui: https://vins-saint-Émilion.com/en/our-wines-2/the-2012-classification/

Segundo o LivEx**, não haveria motivo para espanto: o ranking de 2012 seguiu o que o mercado já dizia. Pavie e Angelus já eram comercializados em patamares bem acima da média dos demais 1er GCC B e La Mondotte e Valandraud já eram, há muito tempo, 1er GCC B se considerados os valores praticados no mercado, como mostra a seguinte tabela:

(valores em libras, considerando uma caixa)

É preciso ressaltar que os dados acima da LivEx consideraram apenas 5 safras (2005 a 2009), enquanto a classificação oficial avalia um período mais extenso. De qualquer forma, as mudanças parecem indicar dinamismo da classificação, sua capacidade de se manter atualizada e de prestigiar a meritocracia sobre a tradição. Ótimo, não é?

Mas evidentemente não é possível contentar a todos. Os rebaixados e os que se sentiram preteridos alegaram vários erros de procedimento, além de sérios e graves favorecimentos e manipulação indevida do processo.

Hubert de Boüard, um dos donos do Château Angélus, e Philippe Castéja do Château Trottevieille foram formalmente acusados de influenciarem na classificação de 2012 e de agirem em conflito de interesses.

Boüard (E) e Castejá (D) nos tribunais

A principal acusação sobre Boüard era a de que ele, como membro da INAO, teria atuado na escolha do painel de julgadores e interferido na métrica da avaliação, privilegiando critérios de sua própria conveniência.

Por seu turno, Castéja teria aumentado a área do Trottevieille para locais considerados de qualidade inferior, incompatíveis com as características de terroir exigidas para os 1er GCC B.

Em 2018, as cortes de Bordeaux rejeitaram o pedido de anulação da classificação de 2012, mas por decisão ainda pendente de recurso.

Na esfera criminal, Boüard foi condenado a pagar uma multa de € 60.000,00 (hoje cerca de 150 garrafas de Angelus), por ter participado indevidamente de vários estágios da avaliação, Castéja foi absolvido.

Uma decisão final sobre a anulação da classificação de 2012 é esperada para o início de 2022. Certamente o desfecho da história é aguardado com ansiosidade pelo confuso ranking de 2006 (como ficou mesmo?) e pelo zumbi de 1996, que virtualmente pode ser ressuscitado novamente.

Também em 2022 deve sair a nova Classificação de St-Émilion e a meteorologia já promete ventos e tempestades.

Na próxima parte do artigo eu falo sobre os últimos acontecimentos, o futuro da classificação de St. Émilion e se um ranking como este ainda faz sentido.

** O Liv-ex (The London International Vintners Exchange), fundado em 2000, compila dados do comércio de vinhos, reunindo informações colhidas em 43 países.

1 Comment
  • Marlene Dias
    dezembro 24, 2021

    Parabéns! Somente um Connaisseur de Vin poderia explicar toda confusão em torno do St Émilion.

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