A Classificação de Saint-Émilion – Uma Grande Ideia Que Não Deu Certo (parte 3)

Por 3 janeiro, 2022 0 Permalink

Este artigo é dividido em 3 partes:

Parte 1: Uma grande ideia(http://www.diogodias.com.br/a-classificacao-de-saint-emilion-uma-grande-ideia-que-nao-deu-certo/)

Parte 2: Uma classificação que não funciona (http://www.diogodias.com.br/a-classificacao-de-saint-emilion-uma-grande-ideia-que-nao-deu-certo-parte-2/)

Parte 3: O futuro da Classificação de St. Émilion – Você está aqui

Nas primeiras duas partes deste artigo explicamos a classificação de St. Émilion e expusemos os principais problemas que minam a credibilidade e impedem o ranking de funcionar como deveria.

Nesta terceira parte contamos os últimos acontecimentos, discutimos se a classificação, criada em 1955, ainda faz sentido diante de tantos percalços e fazemos algumas previsões para o futuro.

Os recentes acontecimentos e a perspectiva atual da Classificação de St. Émilion

Em 2021, logo após a condenação de Boüard, proprietário do Château Angelus, por ter interferido indevidamente no ranking de 2012, o Château Ausone e o Cheval Blanc, que reinavam no topo da classificação desde a sua criação, anunciaram que não mais participarão nas próximas edições. Ambos negam que a decisão tenha sido tomada em conjunto.

Os diretores do Cheval Blanc alegaram que as métricas passaram a ser demasiadamente influenciadas por desempenho de mercado, com pouca importância ao terroir, vinicultura, tipicidade e capacidade de envelhecimento.

Marketing ousado: Château Angelus no filme: 007 – Sem Tempo Para Morrer

Os representantes do Ausone têm um discurso parecido. Em uma entrevista à revista Decanter, Pauline Vauthier, uma das proprietárias, disse que há muito tempo avaliava deixar a classificação. Atalhou que marketing e enoturismo são coisas muito legais, mas que a verdadeira dimensão de um grande vinho vem do terroir, vinicultura e tradição. E completou dizendo que uma reavaliação a cada 10 anos baseada em 15 safras é muito pouco para avaliar propriamente a capacidade de um vinho de envelhecer.

Se antes Château Le Dome, Tertre Roteboeuf, Quintus, Rocheyron, entre outros grandes nomes que poderiam ser considerados verdadeiros 1er Grand Cru Classé, tanto pelas avaliações da crítica quanto pelo valor de mercado, já tinham decidido não se submeter ao ranqueamento, o desembarque do Ausone e do Cheval Blanc é um grave revés para a classificação de St. Émilion.

Será, então, que a classificação ainda possui relevância?

Do ponto de vista de quem procura na lista uma estratificação principalmente pelo viés qualitativo, a pergunta faz sentido.

Embora não se questione a grande qualidade de Angelus ou Pavie, a maior parte dos críticos costuma colocar Ausone e Cheval Blanc em patamar superior. O que explica, em parte, a surpresa gerada pela classificação de 2012 com a ascensão de Angelus e Pavie para 1er Grand Cru Classé A.


Os 1er Grand Cru Classé A segundo a Classificação Oficial de St. Émilion publicada em 2012

Também é preciso lembrar que Château Valandraud e La Mondotte, promovidos para 1er Grand Cru Classé B em 2012, não têm tradição na elite dos vinhos de St. Émilion.

A primeira safra de Valandraud foi 1991 e La Mondotte era considerado bem mediano até 1996.

A fama do Château Valandraud surgiu depois que o crítico Robert Parker começou a lhe atribuir notas próximas às de Petrus e Château Margaux. Já o La Mondotte veio a receber maior atenção na segunda metade dos anos 1990, quando os intensos investimentos da família von Neipperg na propriedade começaram a mostrar resultados. Antes disso as avaliações e pontuações não eram nada auspiciosas.

Cabe destacar que (apenas) 20 anos de boa produção, comparados com a tradição secular das grandes casas de vinhos, é como um grão de areia nos solos calcário-argilosos de St. Émilion. Um Cheval Blanc 1961 ou um Ausone 1929 estão facilmente entre os vinhos mais desejados (e caros) do mercado.

Somado a isso, vozes muito respeitadas de dentro de St. Émilion afirmam que a classificação deixou de representar os valores verdadeiros e as tradições genuínas do vinho.

Nesse cenário, não há como negar que a confiança no ranking fica, no mínimo, abalada.

Sob uma visão comercial, a perspectiva é bem diferente.

Os dados coletados pela LivEx* demostram que a partir de 2012
houve um considerável aumento no preço de Angelus e Pavie, descolando fortemente sua performance da média geral de Bordeaux:

A partir de 2012 os preços de Angelus e Pavie tiveram vertiginosa

Um produtor que dormiu dono de um vinhedo Grand Cru Saint-Émilion básico (fora da classificação) e acordou com seus vinhos ranqueados como Grand Cru Classé, teve o patrimônio imobiliário valorizado de três a cinco vezes. Que belo sonho, hein!

Um hectare de Grand Cru Classé vale entre €1,5 e € 3 milhões, na liga dos Premier Grand Cru Classé, a brincadeira sobe para algo em torno de € 2,5 milhões a € 4,5 milhões pelo mesmo tamanho de terra.

Mesmo com tantos problemas nas listas de 2006 e de 2012, a INAO** afirma que as avaliações para 2022 seguem de vento em popa e que nunca recebeu tantos pedidos de produtores que pagaram a inscrição de €14 mil (ou €21 mil para Premier Grand Cru) interessados a entrar no próximo ranking.

Creio que isso responda à pergunta acerca da relevância atual de uma lista como essa. Rankings, listas e classificações nunca deixarão de existir, mas, vetores como qualidade, tradição e interesses financeiros raramente estarão adequadamente alinhados.

Voltando à Classificação, talvez a melhor coisa que a INAO tenha a fazer seja mesmo editar rapidamente um novo ranking. Isso poderia empurrar as confusões anteriores para debaixo do tapete, tornando sem sentido prático as discussões sobre listas já expiradas.

Mas, recomenda-se barbas de molho para aqueles que acreditam que o ranking de 2022 poderá resolver todas as agruras vivenciadas e finalmente cumprir o papel de informar consumidores, orientar o mercado e inspirar os produtores em metas de qualidade, consistência e tipicidade.

A Classificação em 2022 – Será futuro repetindo o passado?

Em dezembro de 2021, antes mesmo que os procedimentos de avaliação para o ranking de 2022 estivessem finalizados, o Châteu Croix de Labrie e o Tour Saint-Christophe acionaram a justiça.

Eles pediram a suspensão da decisão que os inadmitiu como 1er Grand Cru Classe e Grand Cru Classe, respectivamente.

A discussão envolve a aquisição de áreas de produção ao longo dos últimos anos, o que afetaria o exame dos requisitos de qualidade do terroir e a consistência dos vinhos ao longo do período de testagem (para Grand Cru Classé são analisadas 10 safras enquanto para 1er GCC B são 15 safras)***.

Não se sabe se a desavença terá uma solução rápida e asséptica, mas é claro que há muito potencial para afetar a situação de vários outros candidatos e embaraçar o ranking como um todo. E olha que a avaliação sequer foi concluída.

Cá entre nós… a classificação de St. Émilion apesar de ser uma ótima ideia, parece fadada a não funcionar.

E daqui para frente?

O centenário Château Cheval Blanc

O Château Cheval Blanc e o Ausone já estão solidamente estabelecidos e não devem experimentar impacto pela decisão de abandonar a classificação de St. Émilion.

Sua saída, porém, pode implicar em repercussões relevantes na região e ainda mais profundas para o vinho da região.

O mais claro receio é que o abandono dos dois produtores mais clássicos da apelação possa gerar, no longo termo, uma debandada daqueles que compartilham a visão de que o ranking se converteu a fatores comerciais, deixando de retratar os verdadeiros valores do vinho.

A ausência dos dois pesos pesados também cria espaço para a promoção de novos 1er Grand Cru Classe A.

Château Figeac, Canon e Troplong Mondot parecem ser os aspirantes mais fortes ao cargo. Façam suas apostas!

Para quem gosta desses rótulos ou para aqueles que querem investir talvez seja uma boa hora para comprar, já que eventual ascensão certamente pressionará os preços de mercado.

Mas não é só.

Pavie e Angelus são considerados vinhos modernos, enquanto Cheval Blanc e Ausone têm o perfil mais austero e clássico dos vinhos de Bordeaux.

Até 2012 estes estilos estavam em igualdade no nível mais alto da Classificação. Porém, tomando o cenário atual, é possível que a partir de 2022 tenhamos somente vinhos “modernos” como expoentes daquilo considerado como o que de melhor se produz em St. Émilion.

Ou seja, a lista de 2022, pode representar a exortação de um novo modelo dos vinhos para a região, por meio de uma classificação dita oficial.

Pode parecer pouco, mas não seria exagero imaginar que o ranking de 2022 poderia ser o início da mudança do referencial de consistência, qualidade e, ainda mais dramático, do significado da tipicidade de St. Émilion****.

Sem dúvida, uma interferência que traria profundos impactos para a região.

Uma última nota sobre a Classificação de 1855

Comecei essa série falando sobre a Classificação do Médoc de 1855 e quero encerrar voltando a ela (quem ainda não leu vai lá http://www.diogodias.com.br/a-classificacao-de-saint-emilion-uma-grande-ideia-que-nao-deu-certo/ )

O ranking do Médoc é praticamente permanente e são raríssimas as exceções. Além da ascensão do Château Mouton-Rothschild para Premier Cru Classé, em 1973, há outras duas alterações que eu acho muito saborosas e, por isso, valem essa última nota.


Cantermerle foi adicionado posteriormente no documento oficial da Classificação do Médoc de 1855 logo abaixo do Château Croizet-Bages

O Château Cantermerle não constou a lista original. Depois de muita insistência e comprovações documentais atestando que a propriedade preenchia todos os requisitos para estar no ranking em 1855 quando de sua formação, ele foi admitido como Cinquième Cru Classé, reparando o que seria um erro histórico. Uma garrafa de Cantermele vale hoje entre US$40 a US$ 50.

Um golaço que inscreveu o Cantermerle para sempre entre os melhores vinhos do mundo. No fac-símile do original da classificação de 1855 é possível ver o nome Cantermerle inserido com grafia nitidamente distinta do resto do documento.

Por outro lado, o Château Lanessan foi originalmente escalado como Quatrième Cru Classé mas, decidiu não enviar 6 garrafas para serem expostas na feira mundial de Paris.

O proprietário, Sr. Louis Delbos, achava que a participação em uma feira**** nada acrescentaria à reputação do Château e que não haveria sentido um ranking concebido por meio da análise de papelada e registros comerciais.

E foi assim que o Lanessan acabou ficando de fora da Classificação de 1855. Seu preço de mercado atual varia entre US$25 e US$ 35 a garrafa.

Claro que desde 1855 muita coisa já aconteceu, mas deixo você tirar suas próprias conclusões.

Agradecimento Merecido

Quando comecei no mundo do vinho tive a sorte de contar com a generosidade de muitos amigos. Um em especial se se dizia viciado nos vinhos de Saint-Émilion. Figeac é sua menina dos olhos. A ele agradeço a grandeza de ter compartilhado tantas e boas garrafas e de, em alguma extensão, ter transmitido a mim o seu vício.

Notas:

* O Liv-ex (The London International Vintners Exchange), fundado em 2000, compila dados do comércio de vinhos, reunindo informações colhidas em 43 países.

** A INAO é a autoridade que regula os produtos agrícolas e alimentos na França.

*** Para saber ais sobre as métricas da Classificação de St. Émilion acesse http://www.diogodias.com.br/a-classificacao-de-saint-emilion-uma-grande-ideia-que-nao-deu-certo-parte-2/

**** Consistência, qualidade e tipicidade são critérios de avaliação utilizados na Classificação de St. Émilion, para saber mais acesse http://www.diogodias.com.br/a-classificacao-de-saint-emilion-uma-grande-ideia-que-nao-deu-certo-parte-2/.

***** A Classificação de 1855 do Médoc e Graves foi criada para promover os vinhos franceses por ocasião da Exposition Universelle de Paris. Para mais informações acesse http://www.diogodias.com.br/a-classificacao-de-saint-emilion-uma-grande-ideia-que-nao-deu-certo/

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