Crítica Sobre a Crítica de Vinhos

Por 8 junho, 2021 0 Permalink

Tenho notado um crescente descontentamento com algumas notas atribuídas por parte da crítica de vinhos.

Qualquer vinho minimamente razoável ostenta uma etiqueta de 90 pontos e ganha medalhas além de um monte de elogios de certos nomes bastante conhecidos no meio.

Apesar de 90 pontos ser “an outstanding wine of exceptional complexity and character”, segundo a escala criada por Robert Parker para a Wine Advocate, esse é, aparentemente, um novo piso da categoria para vinhos finos.

Sumiram os rótulos de 87-89 pontos (“VERY GOOD Often good value; well recommended”, segundo o ranking da Wine Espectator – WE) ou os de 83-86 pontos (“GOOD Suitable for everyday consumption; often good value”, ainda segundo a WE).

Ao que parece, muitos críticos famosos andam banalizando as notas altas, atribuindo prodigamente até 100/100 para vinhos elaborados em regiões que dificilmente seriam capazes de produzir um “vinho perfeito”, como muitas vezes são apelidados os vinhos que gabaritam a escala.

Evidentemente, uma pontuação alta atribuída por um crítico afamado transfere imediato prestígio ao vinho, à vinícola e ao enólogo.

Não é difícil constatar que, nos últimos anos, a trajetória do vinho o elevou à categoria de um artigo de luxo. Nesse novo universo, o valor da marca, aliado a um controle da oferta em relação a demanda, faz com que o valor de mercado de uma garrafa seja totalmente descolado dos seus custos de produção. O preço cobrado do consumidor por uma garrafa “famosa” representa muitos múltiplos dos seus custos de produção, o que não é comum para um produto de origem agrícola.

 

O Rei do Camarote

 

Alguns rótulos viraram motivo de pura ostentação. Talvez grande parte do público que o consome ficaria horrorizado em saber que o líquido que toca seus lábios provém de uvas manipuladas por mãos campesinas com terra debaixo das unhas.

 

É difícil evitar a correlação entre a generosidade dos críticos e a escalada dos preços, já que esta é, em grande parte, tracionada por este ganho de reputação proporcionado pelas altas notas e medalhas.

 

Evidentemente, críticos não vivem de ar. A submissão de amostras para avaliação não é barata e a publicidade sobre os triunfos do produtor, geralmente nas mesmas publicações que os avaliam, tem seu preço.

Ou seja, a sensação de falta de rigor nas pontuações é agravada pelas desconfianças de um possível conflito de interesses do avaliador. Afinal, ninguém quer decepcionar aquele que lhe paga as contas.

Esse cenário sugere que o sistema de pontuações está sendo desacreditado de dentro para fora, vem perdendo prestígio e frustrando consumidores pela expectativa, não correspondida, gerada por tantos pontos, prêmios e medalhas. Ouro de tolo, como diria meu avô.

 

Mesmo que só alguns rótulos premium sejam submetidos a estes testes, uma boa colocação posiciona toda a vinícola em evidência, coloca o produtor nas categorias mais altas e ajuda a fixar a marca na memória do público, segundo uma percepção qualitativa geralmente abrangente.

Mas aí vem o vinho em lata….

Segundo algumas pesquisas, entre 2018 e 2020 o mercado de vinho em lata cresceu cerca de 70% nos EUA. No Brasil, a pioneira Vivant Wines, fechou 2020 com um faturamento de R$ 6 milhões, 500% maior do que em 2019, seu primeiro ano no mercado brasileiro. A Lovin Wine estreou em 2020 zerando seu estoque no primeiro mês de operação, ultrapassou as metas iniciais e prevê um crescimento de 100% no volume de vendas em 2021.

Ainda que se possa dizer que estes percentuais gigantescos de crescimento devem ser relativizados, tendo em vista que, como se trata de um mercado novo, a base comparativa original é muito pequena, o ritmo do consumo confirma os estudos e pesquisas sobre o forte crescimento deste produto.

Este sucesso está menos associado à praticidade do formato alternativo de embalagem do que na proposta de simplificar o consumo do vinho.

Apesar da enorme facilidade de acesso que a internet proporciona, cada vez menos consumidores estão interessados em detalhes técnicos ou conhecimentos mais profundos.

Particularmente, não tenho nada contra o formato em lata, mas tudo que já vi, li e provei leva à constatação que a proposta é de uma bebida que eu chamaria de “tipo vinho”. Um vinho feito por meio de um processo industrial, oferecendo homogeneidade de conteúdo e sabor em todas as latas.

O vinho, que já vinha se afastando daquilo que realmente é (ou deveria ser), por meio de um processo de glamourização, agora atinge o mesmo ponto de chegada, mas por caminho diverso. Ao invés do luxo, esse processo de industrialização da bebida nos brinda com um suco de uva com álcool, ou uma espécie de drink pronto.

E tudo bem se cada um consumir o que gosta, desde que a escolha seja consciente. Mas, na minha opinião, estaremos bebendo pior por vários fundamentos que contei aqui: http://www.diogodias.com.br/o-dia-em-que-a-safra-nao-importar/

Voltando ao tema, o que parece é que o castelo dos críticos, construído sobre um conhecimento quase misterioso, vem perdendo autoridade. Atualmente sua capacidade de ditar regras é pressionada pelas duas pontas: a de enófilos descontentes ou desconfiados das altas pontuações e por uma crescente legião de bebedores de vinho que simplesmente não se importa.

 

Aliás, o interesse dessa massa que inflama a tendência do vinho em lata parece ser ditado pela avaliação mais simples e direta, um mero “gosto/não gosto” ou pela vontade de vivenciar sentimentos e experiências que possam, inclusive ser compartilhados nas redes sociais. E, neste sentido, a cantora Anitta poderia muito bem vender mais vinho do que Robert Parker.

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