O MELHOR ANO DA MINHA VIDA (até agora) – Parte 3

Se os anos fossem medidos exclusivamente pelos vinhos degustados, eu poderia dizer que 2017 foi meu melhor ano (até o momento).

Continuando a série dos vinhos que tomei em 2017, eis aí a terceira parte dos post “O Melhor Ano da Minha Vida (até agora)”

Vinhos Perfeitos

Pouquíssimos vinhos são laureados pela crítica com nota máxima na escala de pontuação. São os chamados vinhos “perfeitos”, sem nem uma fração a melhorar. Ter a oportunidade de beber um rótulo desses é um acontecimento para qualquer enófilo.

Em 2017, tive a felicidade de participar de uma degustação com nada menos que 5 vinhos perfeitos. Foi uma incrível experiência comparar lado a lado estes objetos de arte, criados através da colaboração entre natureza e seres humanos.

Mas não só isso, a degustação foi conduzida pelo experiente sommelier Massimo Leoncini, que, após apresentar os vinhos, desafiou os participantes a decifrar às cegas suas taças, ou seja, sem saber previamente seu conteúdo.

Vinhos desta estirpe são concebidos de maneira a permitir um longo envelhecimento. É durante esta lenta maturação que os aromas e sabores ganham refinamento e complexidade ao ponto de fazer rolar de prazer os olhos dos degustadores mais exigentes.

Com 8 ou 9 anos de idade, falta muito para os rótulos que compuseram o painel possam atingir a sua plenitude. Obviamente estão longe de serem desagradáveis, mas igualmente longe de entregarem todo o seu potencial. O exercício deste tipo de degustação também passa por identificar se estes vinhos possuem todo o necessário para evoluir com perfeição.

Guardadas as diferenças de estilo, procurei encontrar as semelhanças que fizeram estes vinhos serem considerados o que há de melhor entre seus pares e alcançarem a nota máxima, tornando-se referência para as próximas gerações.

  • Antes de tudo: grandes safras. As condições climáticas corretas em 2009 e 2010 ofereceram matéria prima de grande qualidade ao enólogo.
  • Todos os eles possuem enorme concentração. São caldos de grande estrutura, quase mastigáveis e que pesam na boca. Musculoso é outro adjetivo que costuma aparecer nas descrições.
  • Nada aqui está fora do lugar. Um gole distraído e despretensioso não identificará o álcool, a madeira ou os taninos. Mas eles estão ali, muito bem integrados, um contrabalanceando o outro.
  • Por fim, seus aromas e sabores apresentam grande pureza. Embora (quase todos) ainda bastante fechados em tão tenra idade, seus elementos são límpidos, a ponto de permitir que vários deles tenham uma convivência simultânea sem se subjugarem. Certamente isso permitirá que cada um deles depure em seu tempo próprio, conferindo complexidade ao vinho.

Mas chega de papo e vamos aos vinhos que nos esperavam no decanter por cerca de 2 horas.

 

Casanova di Neri Brunello di Montalcino Cerretalto 2010 (RP 99/JS100/WS 95)

 

A maciez na boca impressiona. Apesar de grande presença de taninos (expressiva de seu estilo), eles estão perfeitamente alinhados com os demais elementos, em especial a estrutura e uma fruta robusta. Rubi bem escuro, apresenta já no nariz aromas terrosos, trufados e frutos negros. A boca confirma o nariz e adiciona especiarias, mineralidade, ervas secas e tabaco. Concentrado, robusto e redondo ao mesmo tempo, transformando adjetivos aparentemente contraditórios em perfeita consonância. Final interminável.

Chateau La Mondotte 2009 (RP 100/WE 96/WS 96/JR 16,5)

 

Rubi escuro e brilhante. Ainda um pouco fechado mesmo depois de 2 horas em decanter. Nariz de amoras negras, groselha escuras e mirtilos. Na boca uma impressionante textura granulada que organiza em camadas a madeira (leve), baunilha, café e mineralidade (pedra). Muita concentração, o vinho pesa na língua, mas a acidez o torna muito agradável. Foi o preferido da maioria dos degustadores, mas não o meu.

 

Chateau Haut-Brion 2009 (RP 100/JS 100/WS 98/WE 96)

Considerado por alguns críticos o melhor vinho desta safra. Em minhas notas de prova escrevi: “primeiro gole: pense no melhor bordeaux que tiver na memória”. Depois de algum tempo voltei nesta anotação e completei: “e depois ainda evolui”. Historicamente o Haut-Brion é conhecido por sua elegância e refinamento mais sutil, mas esse possui nada menos do que 14,3 de álcool, um recorde para o Chateau. A exuberância se mostra também na expressão acentuada dos aromas e na boca com madeira molhada (floresta), caixa de charuto, caramelo e figo. Grande complexidade em estrutura e harmonia. E os taninos… “delicadamente presentes” foi o que anotei.

 

Chateau La Mission Haut-Brion 2009 (RP 100/JS 98/WS 96/WE 97)

“Sangue, caça e couro foi o que primeiro veio à mente” segundo minhas notas de prova. Com tempo se acalmou em taça e revelou amoras e groselha negras e maduras, chocolate, musgo, grafite e cedro. Muita complexidade. Cada gole exibe uma nuance diferente. Muita concentração e generosidade na estrutura. Diante de uma palheta tão variada de sabores e aromas foi meu preferido. Final longo, longo e longo. Eu já disse longo?

 

Dominus Estate 2010 

(RP 100/WS 92/WE 88)

 

Chamar este vinho de patinho feio é quase blasfêmia. Mas diante de um painel de tão alto nível, ficou claro que ele vai precisar evoluir muito para chegar aos patamar de seus colegas do velho mundo. Potente e rico. Voluptuoso em ameixas negras maduras, floresta úmida e um pimentão verde temperado, típico do Cabernet Sauvignon, mas que a mim pareceu em excesso.

 

As recentes safras de 2015 e 2016 foram muito comemoradas e tiveram muitos vinhos perfeitos. Quem sabe não repetimos esta experiências com outras vinhos perfeitos? 😉

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