TIPICIDADE. Mas Quem se Importa?

Por 20 junho, 2019 2 Permalink

Estão na moda as provas às cegas, onde o degustador é desafiado a adivinhar qual o vinho sem nenhuma outra pista além daquilo que seus olhos, nariz e boca forem capazes de indicar.

 

Este desafio só é possível dentro de um contexto de tipicidade. Sem ela, grande parte das máximas de harmonização não faria sentido e tampouco as informações que tradicionalmente estão nos rótulos, já que elas servem, em grande parte, para ajudar a identificar justamente as características típicas do vinho.

 

Mas, afinal, o que é tipicidade?

 

As definições mais precisas tendem a ser um tanto científicas, algo como: “o pertencimento a uma categoria de produtos construídos sobre um terroir, de modo a formar uma unidade cujas características são distinguidas e identificadas por uma comunidade a partir de um saber coletivamente partilhado.”*

 

De maneira mais livre, pode se dizer que tipicidade é um conjunto de características transmitidas por vinhos da mesma espécie. A mesma paleta de aromas e sabores, cor, corpo, intensidade de acidez, taninos, etc.

 

No mundo do vinho, tipicidade está quase sempre ligada à origem, ao terroir. Assim, vinhos de determinadas regiões, ostentam certas similaridades que compõem uma identidade: tipicidade.

 

Vinho típico é aquele que traz consigo estas similitudes, por exemplo, há uma certa identidade nos malbecs de Mendoza, nos rieslings de Pfalz e nos tintos de Chateauneuf du Pape. Antes mesmo de abrir a garrafa já é possível antecipar as características que provavelmente serão reveladas.

 

A quintessência da tipicidade está nas Denominações de Origem (DO); regiões geograficamente demarcadas, onde as espécies de uvas corretas para aquele tipo de solo e clima, o percentual que compõe os blends, a forma de vinificação entre outras características são, de forma geral, reguladas. Isso acaba por enfatizar, ainda mais, as características coletivas de personalidade.

Um Champagne é sempre um Champagne

 

Em champanhe, por exemplo, há limites para as áreas de plantio, forma cultivo, método de vinificação permitidos, restrição para os tipos de uva utilizados e até a quantidade da produção anual é supervisionada.

Abra um Champagne. Abra de novo. E tantas rolhas quantas forem deflagradas sempre revelarão… um Champagne.

 

A garrafa que ostenta uma Denominação de Origem pretende exibir não só uma tipicidade, mas também garantia de qualidade. Qualidade esta assegurada pelos critérios mínimos do processo produtivo para que aquela garrafa tenha impresso no rótulo sua DO. Quem produz fora das regras não pode ostentar a classificação de origem e geralmente fica na divisão mais simplória de vinho de mesa.

 

A escolha de um Chianti ou um Borgonha são marcantemente orientadas pelas características de origem destas DOs tão consolidadas. Ao se optar pelas harmonizações clássicas: um Chablis para ostras; um Vinho Verde para o bacalhau; ou um Porto escoltando um charuto, está se colando toda a confiança na tipicidade, sem dúvida.

 

Safra após safra e centenas de anos de prática orientam as regras das DOs e elevam o nível de qualidade através da experiência. Essas vivências seculares criam estilos típicos que acabam por inspirar outros vinicultores.

 

Tome-se o exemplo do “estilo” de Bordeaux. Suas uvas e suas características são replicadas internacionalmente muito além dos seus limites geográficos e regras de plantio e vinificação.

 

Mesmo sem poder exibir qualquer classificação de origem e às vezes colocados na mesma categoria do vinho de garrafão, há excepcionais exemplos de vinhos, mundo afora, que mimetizam esse estilo, digamos, internacional, independentemente de sua origem.

 

No fim dos anos 1960, o célebre Robert Mondavi montava sua vinícola na Califórnia. Neste período, diz o anedotário Mondavi era um dos maiores importadores de vinhos finos bordaleses nos Estados Unidos, adquiridos para a realização de dezenas de obcecados testes e comparativos com sua produção.

 

Não se sabe se isso é verdade, mas o famoso concurso conhecido como “Julgamento de Paris”, em 1976, foi uma enorme quebra de paradigma mundial. Na ocasião, famosos críticos internacionais em degustação às cegas preferiram vinhos californianos sobre grandes nomes de Bordeaux.

O resultado do Julgamento de Paris surpreendeu a todos (tintos)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vinhos da Cata de Berlim

 

 

Em 2004 ocorreu a “Cata de Berlim”, concurso onde vinhos produzidos no Chile se ombrearam a rótulos de grande prestígio mundial dos mais renomados produtores europeus e norte-americanos.

 

 

 

 

Estes exemplos demonstram que desafiar a tipicidade muitas vezes recompensa. Aliás, o vinho do ano de 2018, eleito pela prestigiada revista Wine Spectator, foi produzido na Itália com uvas tipicamente associadas a Bordeaux (Cab. Sauvignon e Cab. Franc).

Sasicaia: Italiano com uvas típicamente francesas

 

Seria possível citar vários outros exemplos de concursos às cegas ou de vinhos icônicos produzidos “ao estilo” de outras regiões distintas da sua origem.

 

 

 

Há quem critique os vinhos “sem tipicidade” por não carregarem suas tradições e características locais, seriam eles apenas imitação das peculiaridades intrínsecas de outros lugares. Justamente por isso seria virtualmente impossível adivinhar sua origem em uma prova às cegas, afinal, estes vinhos poderiam ser produzidos em qualquer lugar.

 

Guardadas as devidas proporções, seria como se, por exemplo, um grande chef renunciasse a culinária local, usando seu talento para reproduzir receitas clássicas francesas.

 

Muita gente defende que bom mesmo é tomar um bom vinho, independente da procedência e das “frivolidades dos puristas”, que acabam constituindo fatores limitadores para novos tipos e estilos de vinho como, por exemplo, a tipicidade.

 

Evidentemente, neste mundo do vinho, onde quase nada é consenso, para mim é claro que a tipicidade que deve servir ao vinho e não o contrário. Isto é, de nada adianta ter um vinho típico e ruim. A questão é que ao comprar um vinho pelo estilo e não pela tipicidade, em geral, não se saberá quais as regras de qualidade foram aplicadas no processo produtivo e nem se o estilo prometido, de fato, é o que se entrega.

 

E você? Acha que tipicidade importa ou tanto faz entre um vinho típico ou um estilo de vinho?

 

*NIEDERLE, Paulo André e AGUIAR, Míriam: Indicações Geográficas, Tipicidade e Produtos Localizados: os novos compromissos valorativos na vitivinicultura do Vale dos Vinhedos, in Rev. de Economia Agrícola, São Paulo, v. 59, n. 2, p. 21-37, jul./dez. 2012
2 Comments
  • Marcos Dourado
    junho 21, 2019

    Olá Diogo. Muito boa explanação!! Eu fico com as duas ou tantas outras quantas apareçam…
    A tipicidade é boa para uma harmonização onde o vinho teve que ser comprado sem conhecer (acontece). As imitações e obscuridades são divertidas…
    saúde!

    • diogodias
      junho 30, 2019

      Marcos, obrigado por seu comentário. Uma das boas coisas do mundo do vinho é a pluralidade. Saúde.

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