A Classificação de Saint-Émilion – Uma Grande Ideia Que Não Deu Certo (Extra)

Por 29 janeiro, 2022 0 Permalink

Extra, Extra, Extra…

Logo depois de ir ao ar o último capítulo da série sobre a Classificação de St.Émilion e o porquê ela é uma grande ideia que não deu certo, o Château Angélus resolveu abandonar o ranking (teriam eles lido nossas críticas?).

É um fato relevante, que merece esse post extra.

Para compreender o contexto desse acontecimento recomendamos, com ênfase, a leitura dos artigos anteriores:

Parte 1: Uma grande ideia(http://www.diogodias.com.br/a-classificacao-de-saint-emilion-uma-grande-ideia-que-nao-deu-certo/)

Parte 2: Uma classificação que não funciona (http://www.diogodias.com.br/a-classificacao-de-saint-emilion-uma-grande-ideia-que-nao-deu-certo-parte-2/)

Parte 3: O futuro da Classificação de St. Émilion (http://www.diogodias.com.br/a-classificacao-de-saint-emilion-uma-grande-ideia-que-nao-deu-certo-parte-3/)

Neste artigo extra analisamos os impactos da retirada do Château Angélus.

A Reviravolta

Angélus bem poderia ser o símbolo da Classificação de Saint-Émilion. Passou por todos os estágios do ranking, começando como Grand Cru Classé, em 1996 foi promovido a 1er Grand Cru Classé B e a 1er Grand Cru Classé A em 2012, posição que até hoje ostenta.

A cada degrau vencido viu crescer sua notoriedade perante seus pares e frente aos consumidores. Também viu o preço de seu rótulo escalar vertiginosamente.

Em 5 de janeiro de 2022, o Château emitiu um comunicado oficial afirmando que a Classificação de Saint Émilion, originalmente uma incrível ferramenta motivacional, de concorrência saudável, e promoção da região, tornou-se uma fonte de desentendimentos, atitudes depreciativas e ações judiciais.

“The Saint-Emilion classification has gone from being a source of progress, to a vehicle of antagonism and instability”, declarou Angélus.

A carta faz referência à anulação do ranking de 2006, ao processo questionando a lista de 2012 (e lá se vão 10 anos de indefinição) e às recentes medidas judiciais ajuizadas contra a classificação de 2022, a qual nem ao menos foi concluída.

Angélus reforça que preferiu se retirar de uma classificação que sequer pode assegurar sua viabilidade (muito menos benefícios esperados), não compensando as restrições impostas e risco de ataques injustos.

Vale lembrar que para participar do ranking os produtores devem se submeter a regras rígidas, entre elas a limitação das áreas de plantio, o que encarece e limita a produção.

Quanto aos “ataques injustos”, trata-se de evidente alusão às ações judiciais acusando o Sr. Hubert de Boüard, um dos proprietários do Angélus, de interferir na Classificação de St. Émilion em favor de seus interesses próprios*.

Não dá para negar a existência de motivos legítimos para que Angélus abandone a Classificação de St. Émilion. Além das sucessivas confusões, principalmente a partir da lista de 2006, a mágoa de uma condenação criminal e as suspeitas de que seu acesso a 1er Grand Cru Classé A, em 2012, não teria sido totalmente limpo, são cicatrizes amargas, especialmente para quem realmente acredita ter agido honestamente.

Mas evidentemente nenhuma história tem um só um lado e a partida do Angélus tem várias outras implicações.

Uma Grande Jogada

Ao deixar a classificação de St. Émilion, Angélus aproveita para surfar a onda do Cheval Blanc e Ausone, que se retiraram do ranking seis meses antes, sob o discurso que os critérios de avaliação não refletiam mais os verdadeiros valores do vinho.

Ou seja, sem nada perguntar Angélus força a entrada na turma dos produtores indiscutivelmente mais prestigiados da região. A percepção de bloco trabalha no sentido de dissipar a ideia de que Angélus não estaria no mesmo patamar de qualidade dos outros dois.

Angélus agiu como quem joga xadrez

Da mesma maneira, embora os motivos declarados sejam distintos, Angélus de certa forma captura o discurso de seus predecessores no sentido da defesa do terroir, tipicidade e tradições do vinho.

Isso lhe é particularmente útil diante das desconfianças que sua notoriedade e ascensão na classificação de St. Émilion se deveriam não apenas pelo conteúdo da garrafa mas, em parte, pela forte promoção comercial e marketing habilidoso.

Tendo alcançado o degrau mais alto da classificação Angélus sai pela porta da frente e pode dizer que o problema não é com ele, mas com os “outros”. Ou seja, os “outros” que causam confusões e desferem “ataques infundados” para difamar sua imagem.

A retirada do Angélus é uma jogada de mestre que o coloca não só fora, mas acima do ranking, o dispensa de obedecer as restrições e dos riscos que um processo classificatório impõe, e ajuda a dissipar as suspeitas sobre o produtor e o seu vinho.

Perdas e danos

A saída do Angélus representa um duríssimo golpe na classificação de St. Émilion, já abalada desde a segunda metade do ano passado com a saída do Cheval Blanc e do Ausone.

A perda de legitimidade e importância é automática. Afinal, se os principais produtores a estão abandonando não deve ser só na Dinamarca que há algo de estranho.

Claramente perdem os vinhos menos famosos, para os quais uma classificação de grande magnitude e que os colocava no mesmo ranking de um Cheval Blanc ou Ausone significava um respeitável cartão de visitas.

Mas os danos não atingem só os pequenos. O Château Figeac corre o risco de ser um dos maiores injustiçados. Há anos Figeac vem sonhando e investindo para ser reconhecido como 1er Grand Cru Classé A, sendo muito provável que ganhe a posição agora na lista de 2022.

Receberá, todavia, um prêmio esvaziado, de uma classificação que perdeu muito de sua significância. Senhor de um reino irrelevante quando, por suas qualidade e méritos próprios, poderia ser rei em muitos outros lugares.

Figeac corre o risco de ser Rei em um reino sem relevância

Não à toa já há quem decrete o fim da classificação de St. Émilion como consequência de uma iminente debandada.

O futuro só o tempo dirá, mas estou convicto que haverá uma classificação em 2022, no mínimo porque mais de uma centena de produtores pagaram a inscrição e se submeteram ao processo de avaliação. É mais fácil publicar o ranking correndo o risco de desagradar alguns do que cancelar tudo e desagradar a todos e encarar inúmeros procedimentos judiciais que parecem ser a tônica na região.

Vingança é um prato que se come frio

A resposta do Angélus para aqueles que, em defesa da Classificação de St. Émilion, o acusaram de agir indevidamente, levantaram suspeitas e insuflaram um processo criminal contra seu proprietário não poderia ser mais dilacerante.

O cuidado na forma e a escolha do momento para a retirada parecem estrategicamente pensados para ferir de morte aquilo que os “outros”, seus supostos opositores, mais prezam.

Angélus já ficou famoso e entrou para o seleto rol dos grandes rótulos. Ele não deve perder isso só por renunciar a coroa de 1er Grand Cru Classé A. Quanto aos “outros”, ficaram eles com comendas de lata e medalhas de tampinha de refrigerante.

Contudo, no final, creio que perdem os consumidores, o mercado e os produtores com a ruína de uma grande ideia, mas que não deu certo.

.

* Em processo criminal iniciado por alguns chateaux descontentes com o resultado do ranking de 2012, o Sr. Hubert de Boüard foi condenado por ter participado irregularmente na classificação de 2012 na condição de membro da INAO. Leia mais aqui: http://www.diogodias.com.br/a-classificacao-de-saint-emilion-uma-grande-ideia-que-nao-deu-certo-parte-2/

Sem comentarios

Deixe uma resposta