Chateneuf du Pape em 3 Histórias

As histórias de Chateneuf du Pape começam no século XIV, quando o papa Clemente V, transferiu o pontificado de Roma para Avignon, ao sul do vale do Rhone.

Os mais finos vinhos produzido na região passaram a ser fornecidos ao papado e ganharam a alcunha de vin du pape (vinho do papa).

Incomodado com o calor, em 1317, o papa João XXII, sucessor de Clemente V, mandou construir um castelo de verão mais ao norte, virtualmente no meio dos melhores vinhedos. O vin du pape ali produzido passou a ser chamado de Chateneuf du Pape (literalmente Novo Castelo do Papa).

 

Estima-se que o papado consumia mais de 3 mil litros de vinhos por ano. Então, quando depois de 67 anos, a sede do pontificado voltou para Roma, Chateneuf perdeu seu maior cliente, seu melhor garoto propaganda e muito do prestígio.

 

Ao longo dos séculos o castelo papal foi várias vezes pilhado. Hoje apenas algumas poucas paredes em ruínas se mantiveram de pé sobre a cidade.

 

Entre tantas histórias de Chateneuf há três que eu acho particularmente interessantes.

 

A primeira é que, em baixa, a região passou a exportar seus vinhos para serem mesclados aos da Borgonha. Produzidos em local mais quente e tendo como base uvas robustas, os vinhos de Chateneuf conferiam mais corpo e gradação alcoólica aos borgonheses.

 

Isso parece tão inusitado hoje, quando a Borgonha tanto se orgulha do refinamento e da elegância de seus vinhos, feitos exclusivamente com a delicada Pinot Noir.

 

A segunda história é que as modernas regras de Denominação de Origem (AOC) francesas, que inspiraram o mundo todo, nasceram em Chateneuf, quando o Barão Le Roy, um veterano da Primeira Guerra, herdou o Chateau Fortia.

Para proteger a vinicultura local, no início do século XX, o Barão criou o um sindicato dos produtores de Châteauneuf-du-Pape, estabelecendo regras quanto aos limites territoriais, modo de produção e gradação alcoólica mínima.

 

Posteriormente, o Barão introduziu modificações também nas garrafas que passara a ostentar os símbolos do pontificado: a mitra papal e as chaves cruzadas do reino dos céus.

Chateneuf produz vinhos muito ricos, com frutas vermelhas, boa estrutura, corpo médio para encorpado e potentes em álcool. Para completar, além de muita tradição, um frescor mineral e capacidade de envelhecimento.

Mesmo assim, era uma região sem brilho, pouco afamada. Vinho a preços módicos, de grande qualidade, para poucos conhecedores privilegiados.

Os ventos começaram a mudar no fim dos anos 1980, quando Robert Paker, considerando por muitos o crítico mais influente do planeta, começou a escrever belas resenhas e conceder alta pontuação para os vinhos da região.

Chateneuf caiu no gosto dos consumidores e o resultado foi a estrondosa multiplicação de preços. A garrafa que nos anos 1990 custava USD 10, no mercado internacional hoje sai por volta dos USD 50. O preço de gôndola no Brasil é pelo menos o dobro do praticado internacionalmente e os rótulos mais famosos podem ultrapassar a barreira dos R$ 1mil.

As 3 uvas principais do sul do Rhone são, pela ordem de importância, Grenache, Syrah e Mourvedre. Além dessas, seja para os vinhos tintos ou para os brancos, em Chateneuf são permitidos outros 10 tipos.

E aqui está uma pegadinha: 3 + 10 = 13, certo?

Errado, pois, alguns tipos de uva podem variar entre brancas e tintas ou possuir outras sub-variedades. Ao todo seriam 18 as uvas de Chateneuf (Grenache Noir, Grenache Blanc e Grenache Gris, Cinsault, Syrah, Mourvèdre, Counoise, Muscardin, Vaccarèse, Terrer Noir, Picardan, Clairette Blanche e Clairette Rose, Picpoul Noir, Picpoul Blanc e Picpoul Gris, Roussanne e Bourboulenc).

Mas se você chegou até aqui, merece saber a terceira história, na minha opinião a mais curiosa de todas, deste vilarejo de 2.225 habitantes segundo o censo de 2015.

 

É proibido sobrevoar, pousar ou decolar de disco voador em Chateneuf du Pape, como se lê no decreto aqui ao lado direito.

 

Foi em 1954, em meio a onda de alien fobia, com as várias notícias de aparições de objetos voadores não identificados na França, que o prefeito editou a norma, até hoje em vigor, proibindo os OVNIs de visitar Chateneuf du Pape.

 

E há rumores que esta lei nunca foi descumprida. Um caso de total sucesso legislativo.

Recentemente tive a oportunidade de participar de um interessante painel de 4 vinhos de Chateneuf du Pape de alta gama. A seguir minhas notas de prova:

Chateau Mont-Redon 2008

Produtor muito tradicional, um dos poucos que cultiva todas as 13 uvas permitidas na DO.

Fresco e elegante, médio corpo. Especiarias, tabaco, leve chocolate ao longe. Ameixas vivas (com o gostoso azedo da casca). Apesar do grande perfil de sabor e álcool, um pouco mais de estrutura o beneficiaria. Mas é produto de uma safra difícil, muita chuva e temperaturas amenas.

 

Domaine de Cristia 2012 (WS 92, RP 91, 16,5 JR)

Vinho orgânico. 70% Grenache, 15% Syrah, 15% Mourvedre

Sedoso, com ameixas maduras profundas. Caça defumada, mix de pimentas pretas, brancas e alcaçuz. Bem redondo o polido. Final bem fresco e mineral. Belo vinho.

 

Chateau de Beaucastel 2010 (WS 96 WE 96 RP 95 JR 18)

Talvez o único que ainda utilize todas as 13 uvas em seu blend (aqui 30% Grenache, 30% Mourvedre, 10% Syrah e 10% Counoise). Talvez o melhor produtor da região, talvez a melhor safra na década. Todos estes talvez não poderiam levar a outro lugar, senão a certeza de um vinho espetacular.

Eleito o 8o melhor do ano de 2013 pela revista Wine Spectator.

Ameixas maduras e amoras. Café e baunilha, sândalo, alcaçuz e pimenta branca e preta. Carne defumada. Bela complexidade e frescor, incomum para a complexidade que oferece. Equilíbrio e uma bela acidez (lembra bala de uva)

Domaine de La Janasse – Cuvee Chaupin 2009 (RP 98 JR 16,5 WS 94)

100% grenache

Super concentrado, enorme corpo e estrutura. Ameixas pretas em calda. Tinta de caneta, e tudo com grande frescor e mineralidade. Aos 10 anos de idade ainda jovem e deve evoluir nos próximos anos.

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